É interessante notar como algumas coisas não mudam. A cidade de São Paulo, que se depara com um grave problema habitacional, abriga cada vez mais pessoas que, não tendo condições de pagar o aluguel e muito menos de pagar a casa própria, são obrigadas a morar nos barracos – ou favelas.
Até aí, é um problema de política pública que deve ser resolvido com urgência pelo Estado, uma vez que está na Constituição brasileira a garantia de moradia a todos.
Mas vamos aos fatos. Na última quarta (dia 13 de dezembro), moradores da Favela Real Parque foram desalojadas sem qualquer aviso prévio da Justiça, a qual alega que os moradores estão vivendo em terreno que pertencia à empresa ligada ao Estado. Assim, em pouco tempo, a Polícia Militar retirou, de forma violenta, os cidadãos que não têm condições financeiras de morar em um terreno próprio – em contraste ao crescente mercado imobiliário na maior cidade do país. Vide os anúncios ininterruptos de condomínios nas páginas dos grandes jornais impressos (mas isso é um outro assunto).
Obviamente, isso não ocorreu sem reação, e os moradores da Favela Real Parque protestaram, fechando vias públicas movimentadas de São Paulo.
Mas a cobertura da grande mídia a respeito do caso foi extremamente medíocre. O enfoque da Folha e do Jornal Nacional, só para falar dos maiores, foi estritamente o “caos” que os “favelados” geraram no trânsito, e esses veículos sequer mencionaram a violência da PM na reintegração de posse, a vulnerabilidade desses moradores e o que acontecerá a eles depois. Sim, só cobriram como recorte o “caos” no trânsito paulistano – que já é um caos, diga-se de passagem.
Para piorar a repercussão, o Estadão de domingo teve a proeza de publicar um editorial no dia 16 de dezembro, intitulado “A questão urbana”. Não só considerou o ato dos moradores da Favela Real Parque meramente como uma lesão à ordem estabelecida, como também enfocou o termo “invasores profissionais”. Isso mesmo que estão lendo, invasores profissionais, como o próprio Estado de São Paulo afirma: são indivíduos que “ocupam determinadas áreas para fazer loteamentos clandestinos, conseguir o “cheque-despejo” de R$ 5 mil da Prefeitura ou obter indenização dos proprietários para sair do local, e estimulam pessoas ingênuas e desinformadas a resistir à execução das ações de reintegração de posse, enfrentando a Polícia Militar e bloqueando vias públicas, com o objetivo de constranger politicamente as autoridades” (grifo nosso).
Para o jornal de ultra direita, a solução é, “obviamente”, “políticas de crédito para a população de baixa renda e construção de conjuntos habitacionais”. Mas o redator enfoca também a necessidade de “maior rigor das autoridades para coibir invasões e evitar que o cumprimento de mandatos de reintegração de posse em áreas ocupadas por invasores profissionais gere graves transtornos para a cidade” (mais um grifo nosso, só para enfatizar).
O mais frustrante vem agora. Após estudar por dois anos um jornal do interior de São Paulo – um impresso de Penápolis da década de 30 (O Penapolese) – notei neste uma vasta gama de editoriais reclamando a atuação dos “falsos mendigos”, ou seja, pessoas que têm como escolha de ocupação o ofício de mendigo, para explorar os “sujeitos de bem”.
Século XXI. Na revista Piauí, uma longa reportagem a respeito da trajetória do grupo Estado, comandado pela família Mesquita. Conquanto haja algumas críticas ao oligopólio comunicacional, na realidade o que a revista faz é tecer elogios de como o Estado se renovou, como a linguagem foi modificada, entre outros aspectos da derrocada do provinciano Estadão à modernidade. Mas será que mudou alguma coisa mesmo? Ou a mídia ainda é voz exclusiva da elite letrada, a mesma do fim do século XIX?
