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quarta-feira, fevereiro 20, 2008

My Chemical Romance - emos, nao leiam isso!


Na fila, milhares de garotas de preto, maquiadas ao extremo e histéricas. Enquanto vou atravessando a imensa fila que começava a andar, incontáveis cambistas perguntavam “Ingresso? Camarote? Eu tenho!”, no primeiro dia de show da banda emo My Chemical Romance, cujos ingressos supostamente estavam esgotados.
Entro no recinto, e a gritaria era assustadora. Não tinha área para imprensa e, portanto, eu tive de ficar no meio das teens que facilmente poderiam ser confundidas com as fãs de Backstreet Boys, se não fosse pela maquiagem carregada e pela franja característica.

Decido abordar o primeiro grupinho de garotas. Para chamar minha atenção, um grupo de garotos emos bissexuais ficava andando pela pista se abraçando e tentando se aparecer: “olha, somos emos, bissexuais e livres!”. Tento não me distrair com a cena, e pergunto para Mayara dos Anjos, de 12 anos, o que ela espera do show. “Sou muito fã, muito mesmo! E gosto também de The Used e Drive”. Como você conheceu a banda? “Vi o clipe na MTV”. Ah, está explicado. Sua amiga ao lado também tinha 12 anos, porém apresentava um adicional: cabelos rosas e maquiagem absurdamente carregada. Beatriz Lorenço diz que ama My Chemical Romance – chamado de MCR pelos fãs. Ou, para bom entendedor de inglês, “EME-CI-ARE”.
“Não sou emo, hein? Mas gosto de bandas emo. Quanto ao visual, me inspiro na Amy Lee, que não é emo”, esclarece a amiga do cabelo rosa. Sua mãe acompanhava a entrevista (e o show, claro). Parecia ter um tremendo orgulho do fato de sua filha ser “rebelde” – não confunda com Rebelde, aquela novela do SBT que virou banda. As roqueiras teens detestam essa “modinha” de RBD e High School Musical.

Sigo à procura de mais garotas, de preferência mais velhas. Afinal, garotas de 12 anos ainda apresentam uma ausência de atitude mais rock’n’roll, tadinhas. Abordo duas garotas que estavam cochichando algo. Elas tomam um susto, e eu também: embora estejam extremamente emperiquitadas, também só tinham 12 anos. As amigas, envergonhadas ao extremo, não autorizaram seus nomes na entrevista. Eu também não iria citá-las, pela ausência de conteúdo de ambas.

Circulo mais um pouco, já perturbada pelos gritos histéricos das ansiosas eminhas. Eis que entrevisto um garoto, que não quis se identificar. Vinte anos, visivelmente efeminado, ele se dizia heterossexual. Mas também disse que “beijaria” os integrantes do MCR. “O mundo é bi”, garante, enquanto dá um selinho em uma de suas amigas.

Vamos ao show!
Para o bem geral, às 21:30 em ponto, o show começa. Os gritos beiram o insuportável, bem como a quantidade absurda de flashes em direção ao palco. Gerald, o vocalista, entra. Ele até que é mais bonito ao vivo, embora muito aquém de outros vocalistas emo, como o ator/cantor Jared Leto, do 30 Seconds to Mars.
Vestindo uma jaqueta jeans azul e de cabelo preto, Gerald causa tanto furor que muitas, mas muitas meninas desmaiam e são carregadas pelos bombeiros em cadeiras de rodas. Eu vi umas dez garotas, no mínimo. Por conta disso, o vocal pára a terceira música no meio e pede, desesperado, que elas dêem um passo para trás. Afinal, tamanho desespero poderia resultar no mesmo acidente de um show do RBD, ocorrido em 2006 em um estacionamento de um supermercado: três pessoas morreram.
Não sei se a tentativa funcionou, e talvez por isso o vocalista começou a falar vários palavrões – e o público (nem eu) entendia nada, por conta dos gritos histéricos e do som, que estava ruim. Contudo, era só Gerald falar “São Paulo!!”, que as meninas deliravam. Se ele falou “Fuck São Paulo!!”, as meninas iam amar do mesmo jeito. Para se ter uma idéia, a voz dele parecia com a do vocalista do Placebo, Brian Molko, de tão metálica que estava.
Ainda assim, na segunda música eu já estava a fim de ir embora. Não conseguia ouvir a voz dele direito, as meninas gritavam demais. Até dava para notar o esforço de Gerald em animar a galera – nem precisava, mas ok, isso é sempre legal.
Meia hora depois, decidi ir embora. Estou no saguão, quando avisto praticamente toda a imprensa fora do show, batendo papo entre eles. E mais uma galera da imprensa indo embora também. Talvez seja fácil resenhar um show previsível. É errado, mas é verdade.
Na saída, vejo uma garota chorando desesperada em frente ao Via Funchal. Ela tinha vindo de São Luís, no Maranhão, para ver a banda. E não comprou o ingresso, por isso estava ouvindo a banda do lado de fora. Ainda bem, pelo menos ela não vai sair de lá surda, suada ou desmaiada.


Foto: Charline Messa/G1